O calor era inominável, tanto que minha camisa
não se decidia se grudava em minhas costas ou na cadeira de plástico. Um bafo
subia do asfalto a tal ponto que minha vista embaçava. Completando o quadro o
cantor era no mínimo escroto. Desafinava cada nota e errava a letra. Mas não
era isso que me deixava puto. O que me deixava puto era que o único bar aberto
nesse feriado só tinha cerveja quente.
Bê estava do meu lado ainda que não recostada
no meu ombro como ela gostava - te amo
só até os vinte e cinco graus, depois disso é covardia – e brincava com o suor
do copo no tampo da mesa. O olhar perdido entre o cantor e a menina bêbada
esparramada no balcão flertando com o Champola.
- A vadia vai
conseguir outra bera de graça já já. Homem é tudo otário mesmo, disse.
- Porra. Otarice é ter que dar em cima de alguém pra
conseguir esse mijo quente...
- Se fosse gelada tava tudo bem então?
- Gata, por uma gelada eu já ia tar chupando o Champola.
-Hahaha, só você mesmo bê. Pra me fazer rir nessa
situação.
- Qual é gata, pensa nas crianças da Africa passando fome
- A Africa tá muito longe e eu to com muito calor pra
esse tipo de empatia, então vamos andar sem rumo falando mal de Deus e do
mundo?
- Vamos. Mais um verso errado desse cara e eu sou capaz
de jogar essa cerveja na cara dele.
- Faz isso não Bê, capaz de dar um queimadura de segundo
grau no coitado.
Levantamos com
toda a dignidade que um casal de vinte-e-poucos-anos meio bêbados num barzinho
de quinta é capaz de reunir. Passei uma nota de vinte no balcão e enquanto o
dono se abaixava pra pegar o troco e Bê estava ocupada procurando o isqueiro na
bolsa, olhei para a menina bêbada.
Ela me deu um
meio sorriso com o olhar ligeiramente vesgo. Um cacho caía preguiçosamente
sobre sua testa e uma alça do seu vestido estava solta, mostrando uma marca de
sol. Uma unha roída alisava sensualmente a boca do copo meio cheio enquanto
outras duas brincavam com o laço da bolsa de crochê que estava sob seu colo. As
pernas cruzadas, esquerda sob a direita com o chinelo esquerdo ameaçando cair,
mas ela não parecia ligar.
-Faz tempo né?
Engasguei a
resposta. Ela sempre teve o poder de me desarmar mesmo bêbada e depois de dois
anos, três meses e uns dias. Por sorte o troco foi depositado sob o balcão, Bê
acendeu seu cigarro e eu pude recolher o resto da dignidade e ir pra porta do
bar.
- Vocês fazem um belo casal – ainda a ouvi quase sussurrar – melhor do que éramos, com
certeza.
Parei do lado de
Bê, puxei um cigarro e consegui acende-lo na quarta tentativa.
- Com certeza.
Bê me olhou sem entender
- Certeza o que animal?
Enlacei meu braço em cima do ombro dela, mesmo no calor,
traguei e disse:
- Certeza que vai ter um bar melhor a frente e, se tivermos sorte, com uma breja gelada.
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