quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

A história é imortal

A história é imortal. Mesmo após todos os conflitos e perturbações que sucederam a queda do império romano ocidental e a conseqüente perda de “interesse” da sociedade européia pelo passado, a história continuou viva nos costumes, tradições e nas técnicas.
 Isto posto, é engano pensar que não houve, no medievo, nenhuma pesquisa ou preservação de dados históricos. A igreja católica manteve diversos escritos romanos por meio de seus monges copistas e produziu intelectuais de suma importância como Santo Agostinho e Tomás de Aquino que bebiam da filosofia Greco-romana. Obviamente, estes textos em latim, além de suprimirem partes que pudessem vir a ser tomadas como heréticas não eram facilmente acessíveis para a polução não clerical. Não deve ser descartada também a importância do Império Bizântino em preservar diversos documentos em grego bem como dos povos árabes sem os quais inúmeros filósofos jamais teriam chego até nós.
 Porém, ainda que houvesse esta “subsistência histórica” ela convalescia, sobretudo na Europa. Monumentos históricos eram tidos apenas como parte da paisagem ou fonte de matéria prima para novas construções. A doutrina cristã que era então virtualmente incontestável, trazia uma sensação de imutabilidade do tempo e das coisas que pode ser facilmente observada nas representações de acontecimentos antigos (sobretudo bíblicos) em que, por mais que os atores estivessem deslocados temporal e geograficamente eram mostrados nos trajes e costumes medievais.
  A mudança paradigmática só veio ocorrer no séc XII, no chamado renascimento. Aonde a busca por um conhecimento não conspurcado pela igreja pôs o período anterior a ela em foco. Autores foram reeditados e voltaram a influenciar mentes na Europa. Não é errôneo pensar que filósofos renascentistas que hoje formam o pensamento ocidental não teriam o mesmo êxito sem os antigos. Infelizmente, esta pesquisa e análise da antiguidade gerou-se a falsa impressão que o período imediatamente anterior foi puramente anti-intelectual e obscuro, o termo “idade das trevas” veio dessa época e mesmo nos dias de hoje ainda encontra eco.
 Não devemos supor que uma historiografia surgiu do renascimento como num passe de mágica. O profundo respeito pelos textos em grego e latim, bem como pelas sagradas escrituras impossibilitavam uma visão crítica dos documentos apresentados gerando o conceito de que a fonte contêm a verdade absoluta e de que a história é feita apenas por grandes figuras o que não poderia ser mais errôneo.    
 Um produção historiográfica mais acurada só viria a ocorrer séculos mais tarde no iluminismo e mesmo esta carecia do rigor hoje imprescindível para a produção de qualquer texto histórico, o anacronismo era freqüente, sobretudo pela busca européia de encontrar no passado as bases de sua formação nacional, porém ainda que com estas falhas tais textos não devem ser descartados visto que demonstram o estudo mais preciso que se poderia ter naquelas circustâncias

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Lado A

 Bruna e Brenda eram irmãs e disso ninguém jamais duvidaria. Poderiam ser facilmente tomadas por gêmeas, apesar dos três anos que separavam as datas de seus nascimentos. A pouca diferença de idade fazia com que fossem verdadeiras parceiras de crime e como tal, inseparáveis. Já haviam rido e chorado juntas, brigaram e reataram incontáveis vezes, compartilharam segredos e inimigos, beberam, vomitaram e cuidaram uma da outra.
 Como qualquer adolescente saudável as duas não queriam saber de muita coisa além de curtição. Mesmo com Brenda sendo levemente pressionada pelo pai para escolher qual a curso iria definir o resto de sua vida e Bruna estar castigo pela nota medíocre que tirou em Química.
 Mas isso não importava. Não hoje. Era domingo e o garoto do colégio que a caçula vinha flertando havia séculos estava no parque com os seus amigos imbecis e ele tinha dito que seria legal se elas fossem.  Claro que foi um código para: "Gata, eu sou burro e tímido mas quem sabe com um pouco de vinho na cabeça eu tomo coragem e nós nos pegamos, bora?". O horário marcado, dois dias antes, foi as duas da tarde o que dava as duas mais três horas para conseguir colocar o plano de fuga em prática.
 Não que Brenda estivesse super empolgada com o namorico da irmã aliás, hipotético namorico da irmã mas, com toda essa merda de vestibular até que seria bom sair pra espairecer um pouco e quem sabe, com sorte, ela também podia conhecer alguém legal.
 Sair era problema. Seu Carlos estava na sala assistindo televisão bem de frente para a unica porta da casa. As irmãs até cogitavam que o pai era o ultimo dos telespectadores nesse mundo frenético de internet banda larga, um incansável bastião da péssima programação dominical brasileira.  O plano foi o de pular a janela do quarto, engatinhar sorrateiramente pelo quintal para não serem vistas da janela, contar com a sorte da vizinha fofoqueira não estar debruçada no portão no momento em que pulavam o muro e correr feito duas loucas até o ponto de ônibus, três ruas a frente. 
 As duas concordaram que o risco do pai querer, a qualquer momento dar uma visita no quarto pra ver se estavam vivas era extremamente alto. Bruna confiava em poder dobrá-lo com um acordo de não sair mais de casa nos próximos quarenta anos, tirando apenas notas dez em todas as matérias possíveis e imagináveis  e a irmã poderia se safar colocando a culpa nela afinal, era de fato culpa dela.
 Valia a pena. Luís não era apenas um gato que andava de skate, tinha um sorriso lindo e sabia tocar violão. Ele era inteligente quase tanto quanto uma garota, gostava dos mesmos livros que ela e das mesmas séries também. Podiam conversar sobre qualquer coisa e assunto nunca acabava e também ele não fedia como todos os outros garotos da sala. Ou seja, um verdadeiro achado. 
  Apesar da mais velha ter ralado o cotovelo caindo do muro, deu tudo certo. Dona Neves não estava vigiando a vizinhança (talvez até ela precisasse ir no banheiro de vez em quando) e agora o parque já apontava no horizonte, pela janela do ônibus. Um pequeno oásis verde em meio a selva de concreto.
 - Mana, sério se aquela toupeira não falar contigo eu juro que bato nele. Onde já se viu. Vocês tão a quanto tempo nesse chove não molha?
 - Para pô, ele é só meio lento.
 - Que bom que é meio, se fosse inteiro ele se declarava pra você no asilo.
 - Não exagera também né, aliás nem sei se ele gosta mesmo de mim. Sei lá, as vezes ele só quer seu meu amigo mesmo e eu to aqui, arrastando um bonde a toa.
 - Se for mesmo isso, aí sim que eu bato nele. Ser lento passa agora idiota desse jeito é até pecado.
 - Para! Olha ele ali acenando pra gente. Seja o que Deus quiser.
 - Amém, guria, amém.