segunda-feira, 13 de fevereiro de 2017

Lado A

 Bruna e Brenda eram irmãs e disso ninguém jamais duvidaria. Poderiam ser facilmente tomadas por gêmeas, apesar dos três anos que separavam as datas de seus nascimentos. A pouca diferença de idade fazia com que fossem verdadeiras parceiras de crime e como tal, inseparáveis. Já haviam rido e chorado juntas, brigaram e reataram incontáveis vezes, compartilharam segredos e inimigos, beberam, vomitaram e cuidaram uma da outra.
 Como qualquer adolescente saudável as duas não queriam saber de muita coisa além de curtição. Mesmo com Brenda sendo levemente pressionada pelo pai para escolher qual a curso iria definir o resto de sua vida e Bruna estar castigo pela nota medíocre que tirou em Química.
 Mas isso não importava. Não hoje. Era domingo e o garoto do colégio que a caçula vinha flertando havia séculos estava no parque com os seus amigos imbecis e ele tinha dito que seria legal se elas fossem.  Claro que foi um código para: "Gata, eu sou burro e tímido mas quem sabe com um pouco de vinho na cabeça eu tomo coragem e nós nos pegamos, bora?". O horário marcado, dois dias antes, foi as duas da tarde o que dava as duas mais três horas para conseguir colocar o plano de fuga em prática.
 Não que Brenda estivesse super empolgada com o namorico da irmã aliás, hipotético namorico da irmã mas, com toda essa merda de vestibular até que seria bom sair pra espairecer um pouco e quem sabe, com sorte, ela também podia conhecer alguém legal.
 Sair era problema. Seu Carlos estava na sala assistindo televisão bem de frente para a unica porta da casa. As irmãs até cogitavam que o pai era o ultimo dos telespectadores nesse mundo frenético de internet banda larga, um incansável bastião da péssima programação dominical brasileira.  O plano foi o de pular a janela do quarto, engatinhar sorrateiramente pelo quintal para não serem vistas da janela, contar com a sorte da vizinha fofoqueira não estar debruçada no portão no momento em que pulavam o muro e correr feito duas loucas até o ponto de ônibus, três ruas a frente. 
 As duas concordaram que o risco do pai querer, a qualquer momento dar uma visita no quarto pra ver se estavam vivas era extremamente alto. Bruna confiava em poder dobrá-lo com um acordo de não sair mais de casa nos próximos quarenta anos, tirando apenas notas dez em todas as matérias possíveis e imagináveis  e a irmã poderia se safar colocando a culpa nela afinal, era de fato culpa dela.
 Valia a pena. Luís não era apenas um gato que andava de skate, tinha um sorriso lindo e sabia tocar violão. Ele era inteligente quase tanto quanto uma garota, gostava dos mesmos livros que ela e das mesmas séries também. Podiam conversar sobre qualquer coisa e assunto nunca acabava e também ele não fedia como todos os outros garotos da sala. Ou seja, um verdadeiro achado. 
  Apesar da mais velha ter ralado o cotovelo caindo do muro, deu tudo certo. Dona Neves não estava vigiando a vizinhança (talvez até ela precisasse ir no banheiro de vez em quando) e agora o parque já apontava no horizonte, pela janela do ônibus. Um pequeno oásis verde em meio a selva de concreto.
 - Mana, sério se aquela toupeira não falar contigo eu juro que bato nele. Onde já se viu. Vocês tão a quanto tempo nesse chove não molha?
 - Para pô, ele é só meio lento.
 - Que bom que é meio, se fosse inteiro ele se declarava pra você no asilo.
 - Não exagera também né, aliás nem sei se ele gosta mesmo de mim. Sei lá, as vezes ele só quer seu meu amigo mesmo e eu to aqui, arrastando um bonde a toa.
 - Se for mesmo isso, aí sim que eu bato nele. Ser lento passa agora idiota desse jeito é até pecado.
 - Para! Olha ele ali acenando pra gente. Seja o que Deus quiser.
 - Amém, guria, amém.
    

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