Greg abriu os olhos (mas não quis se levantar), olhou o teto lembrando novamente que precisava de uma reforma urgente e novamente, lembrando que não teria dinheiro para tanto.
A forma pequena e curvilínea de Majú ressonava baixinho ao seu lado, escondida embaixo do lençol. Via-se apenas seu cabelo loiro-palha com volumosos cachos. Ela era legal. Quem sabe em outra vida eles até poderiam ter alguma coisa.
Quem sabe em outra vida ele teria feito escolhas certas e não seria um ator fracassado, já vencendo os trinta-e-poucos e ainda fazendo novelinha adolescente e sem nenhum papel digno de nota na carreira.
Já estava cansado. Toda vez que se olhava no espelho percebia uma ruga nova. Em poucos anos até este ganha-pão se extinguiria e ele seria obrigado a voltar para a merda do teatro.
Até que não seria ruim, parando pra pensar. Poucas vezes tinha se divertido tanto quanto na época em que fazia teatro. Mas isso fora na juventude, quando ainda tinha sonhos e esperança de ser um ator reconhecido ( e famoso), " é apenas provisório, quando for entrevistado, na premiação de melhor ator, no melhor filme, eu vou dizer: comecei no teatro gente, valorizem o teatro!".
Hoje seria apenas um salario de fome e conviver com tantos sonhos não seria nada prudente. No Liceu aonde as pessoas já estava calejadas e resignadas, ainda vinham uns e outros esperando um trampolim para o sucesso. Isso corroía sua alma feito ácido.
E o pior era quando eles conseguiam.
Na temporada passada mesmo, um galãzinho sem talento caiu nas graças do publico e hoje está no horário nobre. Greg tentava não sentir inveja e ficar feliz pelo colega mas era difícil. Sentia-se mesmo como se estivesse numa areia movediça com boa parte do salario gasto em vodka e maconha pra encarar o dia-a-dia.
Por essas e outras gostava de Majú. Tinha talento, tinha futuro mas não ficava esfregando isso em sua cara. Gostaria de ter coragem de se declarar pra ela. Mas seria burrice, uma coisa é ser um lancinho, uma diversão depois do trabalho, companhia divertida pro happy hour; Outra bem diferente era ser um namorado sem futuro.
Mas estava cada vez mais difícil disfarçar. Ela achava que ele dava em cima de todo mundo, afinal estavam ali para se divertir e de fato, até o ano passado isso seria verdade. Agora não sentia a menor vontade de aturar o papo rola-mole das figurantes e tinha de se segurar para não chama-la toda noite para sua casa. Que cena mais medíocre, apaixonado por uma menina dez anos mais jovem e com medo de se declarar...
- O teto tá interessante?
Foi pego tão no flagra em seu devaneio por aqueles dois olhos azuis - tão grandes - surgindo debaixo do emaranhado que era seu cabelo, que não pode evitar um sorriso sincero. (será que ela percebeu?)
- Foi. Tava pensando em pintar um retrato seu nele, tal qual Afrodite
- É mesmo? e o que o senhorio iria achar de uma mulher nua no teto do apê dele?
- Conhecendo ele, era capaz de aumentar o aluguel.
- Hahaha, só você mesmo Greg. Não vale nada.
Espreguiçou-se (tão linda) e olhou no celular.
- Tá cedo, bora dar umazinha antes de sair?
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