domingo, 11 de fevereiro de 2018

Lado C

 Carlos espreguiçou-se em sua poltrona favorita, a televisão ligada em alguma coisa sem importância. A semana até que correu bem com o trabalho ruim como sempre. Nada anormal, faltavam ainda alguns anos para que pudesse aposentar-se. A casa estava bem mais silenciosa do que o normal, agora que a mais nova estava de castigo e a mais velha ficava como fiel escudeira no quarto.
 De todos os trabalhos esse devia ser o mais cansativo, o mais difícil. Era complicado ter de punir uma garotinha que ele viu crescer, segurou no colo, fez vigília quando estava doente... Ter de gritar, bater porta, essas coisas. Ele por ele mesmo, não fazia questão. Ainda mais por uma bobagem como uma nota baixa (física? química?), Carlos em sua época não foi um bom aluno e nem por isso virara má pessoa. Mas como pai tinha a obrigação de sempre exigir o melhor, de fazer o possível e o impossível para que suas meninas se dessem bem. Se para tanto havia de brigar, paciência.
 Não chegou a faculdade, infelizmente. Mais por falta de recursos do que por qualquer outra coisa. Como arcar com um curso superior tendo de comprar comida para duas crianças pequenas? Ainda mais depois que Leandra morreu. O sonho de ser engenheiro mecânico quase se realizou, costumava brincar. Só faltou a parte do engenheiro, Besteira pouca.
 Não reclamava. As meninas eram o que mais prezava. Davam trabalho claro, que tipo de adolescente não dá? Mas não tinham se metido com droga nem pego barriga de algum marginal. Ajudavam na casa sem que fosse preciso ficar mandando e ainda que não fossem as mais inteligentes, nunca tinham reprovado, tampouco. A mais velha agora iria prestar vestibular (embora não soubesse para o que). Pensar nisto lhe dava um misto de alegria e tristeza. Suas meninas estavam crescendo... Logo, logo sairiam de sua asa pra batalhar neste mundo por si próprias.
 Pensava em Leandra, como a vida teria sido se ela ainda estivesse aqui? Concordaria com suas atitudes? Ralharia com ele por não levar as meninas pra missa todo domingo? Dificil dizer. Gostava de pensar que no fim ela teria gostado do resultado final. Não era o melhor pai do mundo, mas dera o seu melhor e elas estavam razoavelmente encaminhadas. A oficina não tinha permitido muito luxo porém elas nunca passaram fome e disso ele muito se orgulhava. Sentia falta da esposa. Uma vez ouviu numa novela quando o outro morre ele cresce na gente,  só as partes boas ficam e as ruins vão sumindo... capaz que a gente gosta mais assim longe, do que se a pessoa tivesse perto, na mesmice dois dias com brigas e ciúmes. Tinha sentido. Os dois brigaram claro, variadas vezes por variados motivos e era difícil lembrar disso. Pegava-se pensando no dia do casamento, ou quando as meninas nasceram, em como foram felizes.
 Tinha falta de mulher também. Não só o sexo, isso ele resolvia sem muitos problemas, mas faltava alguém pra conversar, pra expôr seus problemas, fraquezas, Ouvir também, dar opinião sobre o dia dela sentar junto na varanda, fazer carinho. Tinha medo. Suas filhas já acostumaram-se com ele sozinho. Outra mulher podia ser vista como uma rival ou pior, um insulto a memória da mãe. Tinha medo até de sugerir isso e se elas resolvessem fugir de casa em protesto? Como se perdoaria?
 Não. Ficasse tudo como estava, melhor. E ele também não era tão novo, as rugas começavam a talhar seu rosto, seu cabelo já ia perdendo a cor. Tinha vergonha de tirar a camisa, sua barriga saliente, músculos que deram tanto orgulho agora desmanchando. Era difícil ficar velho.
    - Beeep.
 O telefone. Aí cacete, o que seria?
  - Alô? Policia? Como assim? Não, não deve ser engano minhas meninas estão no quarto... Como? Bruna e Brenda, sim. Silveira da Rosa isso. Cristo, elas estão bem? Claro. Estou indo praí agora.


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