Conter o impulso primitivo de levantar a cabeça levou um certo tempo.Engolir aquela porcaria amarga sem vomitar, um pouco mais. A parte de sorrir depois de tudo isso foi fácil afinal o curso de teatro tinha de servir pra alguma coisa.
- Aaaah bom como sempre Arlindo... Agora vai se limpar que a gravação começa em quinze.
- Sim senhor.
- Perdão?
- Ahaam... claro. " Obrigado meu gentil mestre por consentir que esse humilde servo possa usar este corpo indigno para lhe dar prazer. Não consigo expressar em palavras a felicidade que sinto por alguém tão distinto ter me escolhido para este trabalho".
O diretor sorriu. Adorava toda aquela palhaçada. Inclinou-se para Arlindo e deu dois tapinhas suaves em seu rosto.
- Muito bem querido. Aprendeu rápido até.
Só depois de ele ter ido embora é que pôde se levantar. Passou rápido pelo espelho do banheiro. Antes, ele tinha orgulho da sua beleza mas hoje ela lhe causava asco. Logo que conseguiu o papel de protagonista o diretor o chamou para o seu trailer. Ele ainda esboçou resistir.
- Olha, eu não tenho mais idade e muito menos paciência pra esse tipo de merda beleza? Tu acha que dar prum velho escroto que nem eu é degradante demais; Que você nunca se sujeitaria a isso; Que você é um lindo floquinho de neve do nosso senhor Jesus Cristo, foda-se. A porta ta aberta, é só ir embora. Tem uma fila de galãzinho sem talento atrás de mim, hoje mesmo tem alguém no seu lugar.
Arlindo não se moveu.
Tinha vindo de uma familia razoavelmente bem de vida e antes de aprender a andar já fazia comerciais para TV. Daí para pequenas pontas foi quase natural, nada de destaque é claro. Seu primeiro papel valendo era esse, como Bernardo o menino defensor dos frascos e comprimidos cuja merda não fedia.
Licor era laboratorio, em um ano ele caia nas graças do público e era chamado pra uma novela das seis e tava encaminhado, em um ou dez anos tava como galã das nove, o auge. Não perderia esse papel, seguraria com unhas e dentes se necessário.
Banho tomado, dente escovado é hora do show.
Festinha tranquila só com as amizades mais chegadas, papai tinha ido viajar e só voltava na segunda. Por enquanto tudo certo mas será que a Ju vai vir? A mãe dela não tava querendo deixar e ela disse que ia vir escondido. Não dava nem pra disfarçar pra galera que estava tudo em, Carlinhos e Rodrigo podiam ver de longe o que ele estava pensando. Será mesmo que a noite que eu planejei vai dar errado? De repente a porta se abre e ele quase quebra o pescoço de tão rápido que virou.
- Beeeernaaardooo - Juliana já se jogou em seus braços jogando Madá pra escanteio. Ela podia se virar com qualquer um dos garotos de lá.
- Pô gata, tava achando que você nem vinha mais meu
- Que isso como que eu ia perder a festa mais badalada do Liceu em? Mas minha mãe não pode saber, eu falei pra ela que ia dormir na Madá e a Madá disse que ia dormir comigo. Plano perfeito né? nós somos demais.
- Demais mesmo gata agora deixa eu te falar. Você não quer ir lá no meu quarto ver o meu videogame novo?
-Videogame? Huum, sei não em, e deixar minha amiga sozinha?
-Que isso gata. Carlinhos ei! CARLINHOS vem cá pô. Em porque você não da uma atençãozinha ali pra Madá em? Valeeu meu bróder. E ai? Agora ela não ta mais sozinha, que tal?
-Hahaha, ta bom então. Vamos ver esse tal "videogame"
Quando os dois estão subindo as escadas a porta da sala se abre violentamente e Luis, pai de Bernardo surge
- EU POSSO SABER O QUE TA ACONTECENDO AQUI BERNARDO??
-iiih fedeu.
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